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Moda, belas-artes e representatividade. A história feliz de Roselyn e Blackson no Chiado

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Por Karyna Gomes para Mensagem de Lisboa

Quando Roselyn e Blackson se encontraram, ambos já tinham decidido que iam seguir os seus caminhos da criatividade. Mas foi a força um do outro que os uniu, dizem, e assim conseguiram o sucesso que hoje têm, ela como designer de moda, ele como artista plástico

Se recuarmos até ao início dos anos noventa quando, aos 4 anos, Roselyn Silva veio com os pais de São Tomé para Portugal e olhássemos para o futuro com base nas estatísticas relacionadas com os imigrantes africanos em Portugal no início da década de 90, certamente não acreditaríamos que hoje ela seria uma das mais conceituadas designers de moda em Lisboa. E que iria ter um atelier de alta-costura no bairro de comércio mais chique da cidade: a Baixa-Chiado.

Talvez nem a própria Roselyn se atrevesse a sonhar isso tudo. Ela teve uma infância tranquila, mas os pais trabalharam duramente, inclusive na fábrica de refrigerantes e na limpeza. O habitual das tais estatísticas, para dar “tudo o que os filhos precisavam”. Em São Tomé, a mãe trabalhava numa firma de contabilidade. O pai era árbitro de futebol. Em Lisboa – de Almada a Sintra, mais precisamente – a mãe tornou-se fisioterapeuta e o pai motorista da Carris.

Foto: Rita Ansone

Roselyn essa seguiu o seu caminho, e foi de vencedora, desde sempre: foi campeã nacional e vice-campeã ibérica de atletismo a representar Portugal (pela Cooperativa Tempo Novo, da Amadora, e no Sporting) ao mesmo tempo que estudou engenharia civil. Até 2013, quando abandonou a área para seguir a sua maior paixão, quando decidiu dedicar-se inteiramente à moda. “Era uma criança muito observadora e adorava vestir a minha mãe, tias e irmãos”, conta.

Entrou para a moda “de uma maneira natural” em Lisboa através da página que criou no Facebook em 2013. Sempre foi “fascinada por criar visuais” e sempre pensou que “poderia contribuir para que as pessoas se vestissem bem.” Mas não imaginava que se tornaria numa designer conceituada.

Blackson Afonso, o marido e companheiro de Roselyn, veio de Angola aos oito anos. Também se dedicou ao desporto – basquete e futebol. Quase se tornou arquiteto quando decidiu que não queria ficar “preso” dentro de um atelier de arquitetura a “fazer o que os outros querem”.

Em 2008 mudou-se para Budapeste por conta própria com uma poupança que tinha feito para desbravar e seguir o caminho de artista plástico. Para se manter, dava aulas de português. Na Hungria, Blackson diz que aprendeu não só a aprofundar os seus conhecimentos a aptidões artísticas, mas também o respeito pela cultura. “admiro muito a visão que os húngaros têm das artes em geral. Lá a cultura é muito valorizada. Isso mudou minha visão do mundo das artes.”

 Foto: Rita Ansone

Foi depois de terem ambos enveredado pela via criativa que Roselyn e Blackson se conheceram, em 2012. Encontraram-se algumas vezes, mas não falaram. Só depois, através de uma amiga em comum, que se conheceram e quando sentiram ambos “uma coisa boa”. “Não saímos logo”. Conta Roselyn com brilho nos olhos, não menos radiante que Blackson. “Tivemos ainda um bom tempo a falar por telefone e quando ele me convidou para sair levou-me para o Oceanário e para o CCB, lugares onde os geralmente os rapazes africanos não costumam levar as meninas e fiquei fascinada”.

Quando se conheceram, Roselyn ainda não era designer de moda, conceituada. Aconteceu depois deles terem se conhecido.

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Roselyn, sempre foi a extrovertida do casal, sempre gostou de mostrar ao mundo as suas obras. Blackson escondia tudo o que desenhava ou pintava. Só em 2018, Roselyn conseguiu convencê-lo a expor pela primeira vez, no antigo Hospital da Estrela, num evento chamado “Concept Design” que reunia vários artistas da moda e das artes plásticas. Ele nunca mais parou.

O segredo: vestidos clássicos com tecidos africanos

Acarreira de Roselyn deu um salto quando ela começou a usar uma mistura de tecidos africanos e de outras paragens. “Em São Tomé é raro ver pessoas vestidas com tecido africano. Mas sempre senti que estes panos me representavam”, conta.

Na altura, não foi uma questão cultural: “até à adolescência não pensava muito na questão da identidade e nem tinha ideia do que era o racismo”, conta. “Sempre fui muito sociável e de fácil relacionamento. Penso que foi pelo desporto, porque facilita muito a construção do espírito de equipa. Só comecei a ter noção dos preconceitos mais tarde”.

 Foto: Rita Ansone

Em 2013 Roselyn criou uma página no Facebook que se chamava “Rose Collection”, onde colocava suas criações e roupas que mandava fazer em tecidos africanos. Eram roupas de estilo clássico, que era o dela, mas com os tecidos africanos, que ela desenhava e mandava confecionar. “A brincar a brincar eu percebi que havia um nicho”.

Os tecidos normalmente vêm de países africanos ou da Inglaterra. Nessa altura ainda trabalhava num gabinete de engenharia civil, como designer de construção, mas “não só apareceram pessoas que gostavam, mas muitas que também queriam comprar”. “Pessoas me paravam na rua para me perguntar aonde tinha comprado e percebi que havia um nicho de mercado que eu deveria aproveitar para vender as minhas peças”, diz.

Foi num desfile que fez em Londres, conseguido através de uma amiga chefe de cozinha de um hotel, para quem tinha feito um fato, que a carreira de Roselyn disparou. Aplaudida de pé pelo público, ela considera ter vindo daí a “aceitação” do seu trabalho. E também diz que se “descobriu nesse dia”.

O ateler do Chiado. Foto: Rita Ansone

Foi um boom mediático também: “De regresso a Portugal comecei logo a ser chamada para vários programas de grande audiência na Televisão em Portugal e nunca mais parei”. A sua participação no programa de tv ‘Shark Tank’ – tendo tido duas propostas, uma do jurado Tim Vieira, de 50 mil euros por 50 por cento da marca, e outra de Mário Ferreira – ajudou muito, também, principalmente em transferir-se do atelier no Areeiro para o da rua Cstilho, onde começou o crescimento da marca.

Tem sido uma “experiência incrível. “Já fiz tanta coisa que até me esqueço de algumas”. Tudo isso fez com que Roselyn começasse a crescer em Portugal.

Esteve, nomeadamente, em Macau, e continua a trabalhar para expandir a sua marca de pronto a vestir. O atelier, no centro de Lisboa, era um “grande sonho”, até como visão de negócio. Os clientes começaram a aparecer naturalmente e cada vez mais. Estão entre eles figuras públicas nacionais e de origem africana.

 Foto: Rita Ansone

Roselyn está entre as 100 personalidades negras mais influentes da lusofonia publicada em 2021 pela revista online Bantumen.

“Não foi fácil como designer, mulher e negra em Lisboa entrar no mundo da moda, mas consegui. Como deves imaginar tive muitos obstáculos. Agora é continuar a trabalhar”. Roselyn diz que é exigente no design, no corte e na qualidade da confeção, mas acredita ter vingado pelas características inovadoras do seu trabalho, por “fugir” dos cortes tradicionais utilizando os tecidos e padrões de África para construir peças únicas de estilo europeu que têm mais a ver com a sua personalidade. Foi assim que acabou por atingir um leque diversificados de pessoas. As suas saias estilo anos 50 fazem furor.

O atelier mantém um serviço de alta-costura, em que as pessoas são atendidas por marcação, há eventos para partilhar novas coleções ou exposições… Nomeadamente das obras de Blackson.

Blackson e Roselyn São marido e mulher, têm um filho que se chama Gabriel, trabalham juntos desde 2015 no mesmo atelier desde a Rua Castilho. Ele retrata pessoas, realidades e causas sociais nas suas coloridas telas de arte vanguarda, desconstrói-as e traz para reflexão. Ela procura fazer o mesmo com as peças que apelida de “sofisticadas e clássicas”, de moda cosmopolita europeia, mas com tecidos e padrões africanos, apelando à identidade.

Roupas e arte. Foto: Rita Ansone

Assim decidiram juntar os trapos e as ferramentas de trabalho mantendo a mesma visão, estilo e missão – “tocar as pessoas”. Ela é extrovertida ele é calmo. Mas o lema dos dois é: “Queremos atingir os nossos objetivos, mas acima de tudo queremos ser felizes. Não viver focados só nas coisas que podemos adquirir”.

Blackson está a preparar uma nova série com cerâmica, numa técnica nova em azulejos, que será exposta no próximo evento no dia 27 de março no espaço Espelho D’Água em Lisboa.

Fonte: Mensagem de Lisboa

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