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‘Fazia rima no trem para comer. Hoje não preciso mais, graças a Deus’

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Criado em favela no Rio, ele estudava para concurso, virou artista de transporte público e agora faz sucesso como MC Estudante

Por Augusto Diniz para Carta Capital

Carlos Cardoso Faria nasceu e foi criado na favela Vila Vintém, entre os bairros de Realengo e Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ainda bem jovem, se dividia entre batalhas de rima (ou de improvisos, muito comuns entre aspirantes do rap) e concursos militares.

Por estudar muito para concursos, acabou adquirindo vocabulário vasto – e incomum no rap. Como todo bom concurseiro, tinha aulas aos sábados e domingos. E saía direto dos cursos para as batalhas de rima.

Seu sonho era ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, mas, depois de passar na prova, foi reprovado no exame médico por ser míope – não se aceita aluno na Epcar com essa deficiência.

Na vida de concurseiro, chegou a ser aprovado três vezes para a Escola de Sargento das Armas, mas não quis entrar por achar a função inferior às oferecidas por outras instituições militares. “Fazia as provas para testar conhecimento”, diz ele, sobre uma prática comum entre concurseiros.

Em paralelo à vida de concursos, Carlos começou a frequentar as batalhas de rima em 2013, de Vila Isabel a Barra de Guaratiba, passando por Méier e Marechal Hermes. Foi campeão de várias delas, chegando ao ápice em 2015.

Em 2016, criou uma dupla com o rapper Xamã, mas em 2017 voltou à vida de concurseiro. “Mas descobri que a minha ‘parada’ não era mais estudar”, afirma ele.

Na Vila Vintém

“Morei em favela, com tráfico de drogas, tiroteio, barricada. Terra de ninguém. Não fui burguesinho, não, nem filhinho de papai e mamãe”, afirma. “Fui um favelado bem educado”.

Seu pai, DJ, o levava desde criança às casas de shows em que trabalhava. “Ele tinha muitos videotracks, que tinham vários clipes. Quando ia pra casa dele, gastava o tempo vendo esse DVDs”, lembra.

A batida com que mais se identificou foi a do hip hop. A primeira música que pegou para escutar para valer foi Odara, com Caetano Veloso cantando sua antológica canção com o rapper Rappin’ Hood.

“E, aí, um amigo mostrou uma batalha de rima. Gostei tanto que ficava em casa na internet vendo isso. Aí, um dia eu falei: ‘Quero batalhar também, mané’”.

Na escola, em rodas de amigos, pedia para que falassem palavras para que rimasse. “Daí, o trabalho foi desenvolvendo”.

No trem

Em 2018, Carlos Cardoso Faria, o MC Estudante, passou a trabalhar só com música. Mas para ganhar a vida na profissão de artista foi fazer rima para os passageiros nos diversos ramais de trem que partem da Central do Brasil rumo aos subúrbios do Rio.

A Vila Vintém, onde cresceu, é um dos bairros cariocas que ficam às margens da linha férrea urbana de transporte de passageiros. A estação próxima foi ponto de partida das inúmeras viagens que fez para ganhar algum dinheiro.

“Faço hoje com menos frequência, mas teve época da minha vida em que precisava rimar no trem para sobreviver, para pagar minhas contas, comer, fazer meu corre. Hoje não preciso mais, graças a Deus”, diz.

No canal do YouTube de MC Estudante há vários vídeos no trem em que ele faz rima de improviso – com desenvoltura e talento. A audiência impressiona. No transporte público conheceu mais uma realidade difícil, além da vivida em seu bairro.

Em anos recentes, em datas comemorativas, ele passou a fazer mais do que rimas para os passageiros. Na Páscoa, percorreu o trem vestido de coelho. No dia das mães, saiu de Dona Hermínia (personagem criada pelo ator Paulo Gustavo). No final do ano, de Papai Noel, distribuindo presentes.

“No trem é muita história diferente. Você vê a coisa do dia a dia”, cita. Ele lembra que, no Natal retrasado, levou 100 frangos congelados para distribuir no trem. “O pessoal bota no forno pra assar para comer na ceia”, comenta. Mas ele recorda a tensão que foi distribuir comida aos passageiros, já que todo mundo tinha a expectativa de ganhar um frango – pelo menos as pessoas que estavam no seu campo de visão.

Brasil

MC Estudante, hoje com 25 anos, mora ainda com a mãe e o irmão no bairro onde nasceu. Mas comprou um apartamento para a família, ainda em obras, que fica pronto só em 2023, em um condomínio no Recreio dos Bandeirantes, no Rio.

Ele está fazendo o seu primeiro álbum – lançou somente singles até aqui. O álbum deve ser de rimas, com cada faixa dedicada a uma disciplina escolar: história, geografia, matemática etc. O nome do álbum: Por que Estudante?

No YouTube, MC Estudante tem singles nos quais se arrisca no trap, uma vertente do rap. “Meu público fiel não curte esse lado. Faço para me adaptar ao mercado. O público meu é mais do boom-bap (rap clássico)”, afirma. “Sonho mesmo é em estourar um hit”.

A sua vivência o fez construir suas rimas de forma muito pessoal e original, com críticas sociais agregadas a conhecimento do estudo formal.

Diz ter revolta pelo fato de a colonização do País ter sido de exploração, diferente dos Estados Unidos, de povoamento. “A exploração criou grandes latifúndios”, resume.

Não crê em melhora no País. “Quem tem, vai ficar com mais. E quem ficar com menos, vai ficar cada vez com menos. Pode ser diferente, mas…”

O exemplo que dá para tamanha desesperança é o BRT Transbrasil, prometido para os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio e até hoje não concluído (a nova data para o término é 2023).

Dos quatro BRTs previstos para a cidade do Rio de Janeiro, apenas o Transbrasil não foi finalizado, mesmo sendo o mais prioritário. Ele propiciaria acesso mais rápido ao centro da cidade aos moradores da populosa Baixada Fluminense e também da região onde ainda mora MC Estudante. A lerdeza do Estado para atender áreas carentes, por longos anos, tem como resultado a inevitável desconfiança – como a do MC Estudante.

Fonte: Carta Capital

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