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Musical evangélico leva ‘broncas’ de movimento negro e recalcula rota

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‘Rua Azusa’, peça da companhia Jeová Nissi, conta história central do pentecostalismo mundial

Por FOLHAPRESS

Contar uma das histórias mais caras aos evangélicos pentecostais, sobre um grande despertar espiritual nos Estados Unidos do começo do século 20, é também falar sobre racismo. Disso o diretor teatral Caíque Oliveira, de 43 anos, não tinha dúvida.

No dia 14 de abril de 1906, quatro dias antes de um terremoto que arrasou San Francisco, tremores de outra natureza atingiam outro pico californiano. Sob comando de William Joseph Seymour, filho de ex-escravizados, começava uma intensa experiência religiosa que logo chamaria a atenção do Los Angeles Times.

O jornal falou sobre um “murmúrio estranho” vindo de um prédio degradado na rua Azusa, em Los Angeles. Não sem preconceito, a elite local se assustou com aqueles cultos liderados por um pastor negro, abundantes no que fiéis viam como curas milagrosas e glossolalia –pessoas falando em línguas estranhas que antes desconheciam, verborragia que, vista de fora, parecia um transe extático. Evidências do poder do Espírito Santo, para os que creem.

Rua Azusa
Cena da peça ‘Rua Azusa’, da companhia Jeová Nissi Foto: Vinicius Sundfeld/Divulgação

Central no pentecostalismo, corrente que um século depois predominaria no evangelismo à brasileira, o episódio se embrenha na história de um país então coalhado de racistas. As reuniões na Azusa eram pioneiras em misturar todos os tons de pele numa época em que negros não tinham permissão para frequentar espaços reservados aos brancos, de escolas a banheiros públicos.

Transformado em teatro, “Rua Azusa”, portanto, era muito mais do que um “musical evangélico”, como a imprensa insistia em rotular. O espetáculo montado pela companhia fundada pelo diretor paulista em 2000, a Jeová Nissi, era sobretudo um libelo antirracista.

Oliveira, contudo, precisou recalcular a rota na medida em que recebia críticas sobre a abordagem racial da peça que queria justamente discutir o preconceito que o reverendo Seymour e seus seguidores vivenciaram um século atrás.

Quando há três anos lançou o musical, por exemplo, usou no roteiro o termo “escravo” para se referir a africanos e descendentes submetidos a trabalho compulsório. Logo recebeu puxões de orelha de ativistas negros.

Atualmente, o termo “escravizado” é usado para falar sem meias palavras sobre povos forçados a trabalhar contra sua vontade, já que “escravo” dá margem à leitura de que essa condição era indissociável da pessoa.

Não foi a única vacilada que deu nesse campo, reconhece Oliveira, que é branco. Tinha a atriz loira que, na versão inicial, interpretava uma espécie de diretora dos acontecimentos narrados pela montagem. “O pessoal veio procurar a equipe, ‘como assim vocês estão falando sobre a questão do racismo e colocam uma branca que fica o tempo todo ensinando os negros como se faz?’.”

Oliveira lembra o trecho com um navio negreiro. A personagem-diretora decidia que os atores negros precisam se esforçar mais. “Ela cortava e falava, ‘isso, gente, muito bom, mas falta um pouco mais de sofrimento’. Eu nunca tinha percebido isso, né [o viés racista]? Aí o pessoal me abriu os olhos.”

Recado dado e acatado. O papel sumiu de cena. Outro erro que corrigiu -a passagem em que uma criança, rejeitada por um pai adotivo branco pego de surpresa por sua negritude, ainda assim pede a ele que seja seu guardião. E dá pito -“como assim uma menina que cresce dentro de um abrigo, com toda a força dela, já entendendo a visão de ser uma mulher negra, vai ouvir que a chamaram de macaca e não vai reagir?”. “Vai implorar pelo afeto de um criminoso?”

A cena foi reescrita para que o homem, depois arrependido, saiba direitinho o crime que cometeu.

Oliveira conta que fez laboratórios com seu elenco, todo evangélico e de maioria negra, e naqueles encontros ouviu muita coisa de embrulhar o estômago. Como a atriz que disse ter escutado, em sua igreja, que seu cabelo black power “não é de Deus” e que, “puxa, por que não deixou liso como antes?”.

“Rua Azusa”, que deve voltar em cartaz no paulistano teatro Nissi, em janeiro, já foi encenado em quatro igrejas, aí inclusas a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia, e a Batista Atitude, frequentada pela primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Cumpre seu papel de trazer “uma mensagem que não se fala no altar”, segundo o diretor. Feridas muitas vezes escanteadas nos centros de fé, “como racismo e agressão contra a mulher”, ele lembra.

A Jeová Nissi, ou Deus é nossa bandeira, em hebraico, nunca disfarçou sua raiz cristã, mas conseguiu furar a bolha gospel em 2019, ao ganhar na categoria de revelação em musicais do prêmio Bibi Ferreira, respeitadíssimo entre os pares teatrais.

A companhia, contudo, entrou na pauta nacional por motivo menos feliz. O dramaturgo Roberto Alvim, que na época dirigia o Centro de Artes Cênicas da Funarte, cismou que queria transformar o carioca Glauce Rocha no “primeiro teatro do país dedicado ao público cristão”. Indicou a Jeová.

A classe artística não gostou nada da ideia e houve até protesto na porta do Glauce Rocha. “Teatro não é igreja.” O combinado foi para o buraco. Pouco depois, Alvim foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro para chefiar a Secretaria Especial da Cultura. Teve vida breve lá, demitido depois de copiar um discurso nazista.

Três anos depois, Oliveira apresenta um musical que definitivamente não é música para ouvidos discriminatórios.

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