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Evangélicos negros temem atuação de André Mendonça no STF

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Cantora se diz envergonhada; para pastor, aprovação é uma afronta ao Estado laico

Embora evangélica, a cantora Andressa Oliveira, 44, não ficou nada satisfeita com a aprovação do nome de André Mendonça, pastor presbiteriano, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto viajava num ônibus urbano carioca, a moradora de Campo Grande, na zona oeste do Rio, listava suas razões à Folha, por celular.

“Me deu vergonha porque ele faz parte de um projeto de poder muito claro, que é violento, que mantém a visão armamentista que respalda a ação violenta da polícia nas comunidades contra o povo preto. Isso é vergonhoso. E, como evangélica, não aceito essa visão de poder disfarçada de teologia, que vai completamente na contramão do que Jesus disse.”

Andressa, que diz hoje “estar batista”, é, ao lado da historiadora Raquel Matoso, uma das coordenadoras cariocas do Movimento Negro Evangélico (MNE), organização criada para discutir a negritude nas igrejas evangélicas, que têm a maioria dos negros que professam religiões no país.

Na pauta da entidade, estão pontos como a pressão para que as igrejas evangélicas integrem o apoio declarado à política de cotas raciais nas universidades e o fortalecimento a lei 10.639, de 2003, que estabelece o ensino de história africana nas escolas, além, é claro, do tema da violência nas comunidades.

Para entender o MNE é preciso, no entanto, conhecer um dos fundadores, o pastor Marco Davi de Oliveira, 55, autor de um dos mais importantes estudos sobre a questão negra e os evangélicos.

No livro “A Religião Mais Negra do Brasil: Por que os Negros Fazem a Opção pelo Pentecostalismo?”, o teólogo parte das origens negras do pentecostalismo —fundado no ano de 1905 em Los Angeles pelo negro William Seymour— para fazer um retrato do rebanho afro-brasileiro e questionar as ausências e as proibições tácitas à cultura negra dentro dos ambientes evangélicos.

Hoje, Marco diz estar afastado do MNE. “Preferi deixar na mão da molecada.”

Filho de pai pentecostal da Assembleia de Deus e de mãe seguidora de linha batista mais austera, o incômodo de Marco se deu por sinais de discriminação racial —como a escassa indicação de negros aos principais seminários teológicos do Brasil— e pela ausência da musicalidade e do ritmo.

Depois, Marco ainda incorporou a leitura étnica dos povos da Bíblia, que se tornou objeto de estudo em muitos círculos acadêmico científicos e base para a assim chamada teologia negra: os traços étnicos do Jesus histórico, que seriam muito diferente das interpretações europeias e americanas que impactaram a religiosidade brasileira —algo que, já nas antigas igrejas ortodoxas africanas, como a etíope Tewahedo, foi contornado há séculos, de forma bastante natural, com representações negras do Cristo.

“A história da Bíblia é a história de um povo preto. Os judeus que saíram da África e que se tornaram cristãos no Oriente Médio. Mas o que a gente vê, além da iconografia de Jesus como um homem branco europeu, é a proibição dos traços culturais africanos no culto cristão”, diz Marco, citando vestes, penteados e até elementos musicais como ritmos e sons mais percussivos, por associação direta ao preconceito com as religiões de matriz africana.

“Aí eu percebi que tudo que era mal era negro, e tudo que é bom acaba padronizado pela ótica do colonizador e afasta o negro, que se censura e passa até a querer ser branco, porque o referencial máximo da fé se mostra dessa forma”, afirma, citando tese de Frantz Fanon (1925-1961), filósofo francês referência nos estudos pós-coloniais. “Mas a verdade é que a igreja é negra, feminina e pobre.”

Para o pastor Ariovaldo Ramos, 63, que não é do MNE, mas acompanha a entidade a partir da Frente Nacional de Evangélicos pelo Estado de Direito (fundada em 2015, em oposição ao impeachment de Dilma Rousseff), era muito natural que surgisse um movimento para dar relevo aos traços da cultura negra sufocados pela colonização e pela escravização.

Porém, o líder da Comunidade Cristã Reformada, do Jabaquara, acha cedo para crer que a teologia negra vá se tornar uma das mensagens dominantes, a não ser em igrejas que já tenham uma peculiar atmosfera ativista.

Por outro lado, é notável nos ativistas negros evangélicos entrevistados pela Folha a solidária manifestação em favor das religiosidades de matriz africana, alvos habituais de ataques intolerantes de pentecostais. As diferenças parecem se situar menos no campo da guerra espiritual e mais no ativismo e na identidade negra.

O pastor Ariovaldo Ramos, da Comunidade Cristã Renovada – Danilo Verpa 15.jul.20/Folhapress

“Eles acham que nós, por sermos cristãos, somos ‘menos negros’, porque adotamos a religião do opressor. Por outro lado, quando há maioria de pessoas de religiões de matriz africana em reuniões do movimento negro, o clima de competição fica muito claro, porque a religiosidade deles tem um traço muito individualista, menos comunitário”, afirma Marco, que lidera há três anos a Nossa Igreja Brasileira, de orientação batista, no Largo de São Francisco da Prainha, no Centro do Rio.

CELEBRAÇÃO DE MICHELLE

Assim como Andressa, Ariovaldo também está digerindo com dificuldade a aprovação de André Mendonça no STF, a qual considera uma afronta ao Estado laico, e a celebração —com direito a supostamente falar em línguas— de Michelle Bolsonaro.

Para o pastor, que, em Brasília, tentou convencer os congressistas a recusar a nomeação, a palavra que descreve a celebração de Michelle é “inadequado”. Ele também lembra que o Brasil já teve um ministro evangélico no STF antes de Mendonça: o diácono batista Antônio Martins Villas Boas (1896-1987) teve aprovação unânime do Senado Federal em 1957.

Para a ativista Andressa, o medo é que a esquerda da classe média, mais laica, caia numa armadilha que habitualmente a afasta dos evangélicos. “Acho errado a Michelle fazer o que fez ali, porque ali o espaço é de Estado e não se mistura. Mas o pior é isso servir para a esquerda zombar de algo que, para qualquer pentecostal, é uma manifestação legítima de sua espiritualidade. Tudo isso por preconceito de classe.”

Mas o que realmente a preocupa é como Mendonça se portará com relação ao ativismo. “A gente fica com medo, porque ele pode, numa ação monocrática, vir atrás de nós por sermos ativistas. E aí, como faz?”

Fonte: Márvio dos Anjos para Folha de S.Paulo

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